Escrevo este artigo não apenas como uma little monster (fã da Lady Gaga) que teve o privilégio de comprar passagens de ônibus para o Rio de Janeiro e a experiência de estar no show da Gaga, mas também como uma comunicadora que se viu pensando em como a Prefeitura do Rio de Janeiro e organizadores das primeiras edições do Todo Mundo no Rio poderiam tornar a terceira edição do evento mais organizada e acessível.
Lady Gaga em Copacabana foi além de um show, um verdadeiro espetáculo! Com um conceito original e elementos que remetem às óperas, hits atemporais e maestria na execução das coreografias, Steffani Germanotta cantou com a alma e com microfone ligado, encantando milhões de brasileiros com seu talento e carisma. A Artista entregou uma performance sem falhas técnicas e com um carinho único pelo Brasil, que transbordou nos figurinos adaptados para combinar com as nossas cores e em suas declarações em tom emocionado.
Em contrapartida, nas áreas mais próximas ao palco principal e ao Copacabana Palace, a confusão resultante da falta de organização e de preparação das equipes fez com que justamente a experiência dos fãs que chegaram mais cedo e principalmente, dos fãs com deficiências não fosse das melhores.
A Área PcD
A área reservada para Pessoas com Deficiência se encontrava ao lado direito do palco, proporcionando uma visão incrível para eles, ao mesmo tempo que bloqueava a visão das pessoas próximas a ela devido à sua elevação e ao fato de que muitos acompanhantes estavam de pé durante o show. No entanto, não havia sequer assento para as PcDs, e muito menos para os seus acompanhantes.
Presenciei a troca de palavras de ódio e discriminação entre fãs e até ameaças de invasão da “área PcD”, uma delas resultando no ferimento de uma pessoa com deficiência, as equipes de segurança tiveram que ser acionada várias vezes. Ironicamente, parecia que centenas de fãs haviam esquecido que a própria Lady Gaga também possui uma deficiência oculta: fibromialgia.
A área tinha capacidade total para menos de 100 pessoas (já contando com os acompanhantes), porém até a manhã do show não encontramos informações sobre o funcionamento da área. Uma amiga PcD foi pessoalmente de manhã se informar, a equipe disse que ela tinha direito a uma acompanhante, mas que não podia sair da área senão perderia a vaga. Inicialmente não ofereceram pulseiras de identificação e na área só tinham alguns banheiros químicos e água. Porém, durante a tarde, quando fui encontrar minha amiga, me proibiram de entrar como acompanhante, alegando que a capacidade máxima já tinha sido atingida.
Presenciei cadeirantes e pessoas com TEA sendo impedidas de entrar. Uma das cenas mais chocantes que presenciei foi ver uma mãe tendo que brigar literalmente com funcionários para que o filho adolescente e autista que estava em crise pudesse entrar na área PcD, e sendo proibida de acompanhá-lo, enquanto havia uma única PcD com três acompanhantes, assisti pessoas com deficiência se queixarem de dor e ouvirem que se passassem mal não poderiam voltar para área PcD. Enquanto isso, repórteres fizeram uma matéria chapa branca sobre a “inclusão de PcDs nos show da Lady Gaga” .
Com muito custo, consegui me aproximar da grade apenas para entregar água e comida para minha amiga, pois havia dezenas de fãs nervosos que estavam sentados em bancos e até deitados no chão desde manhã e não queriam deixar ninguém passar por eles, nem mesmo a imprensa.
O show de abertura e o telão principal
Quando o show de abertura finalmente começou veio outra frustração para quem estava mais perto do palco principal, como a Pablo estava tocando no segundo palco, eles mantiveram os telões e o som do palco principal desligados, ou seja, quem chegou mais cedo para ficar na grade do palco principal, não viu o show de abertura. Esse episódio me fez refletir sobre como o telão principal poderia ter sido melhor aproveitado, já que ele só ligou quando a Lady Gaga subiu no palco.
Muitas pessoas estavam passando mal ou sendo assaltadas e ninguém sabia como agir direito, mesmo com os pontos de monitoramento era difícil conseguir ajuda da polícia ou dos bombeiros. Poderiam ter produzido e reproduzido no telão principal e nos demais um vídeo com informações instruindo os fãs sobre onde ficavam os bombeiros ou como agir sem situações assim, exatamente da mesma forma que os cinemas nos instruem sobre o que fazer em caso de incêndio e quais são as regras do ambiente. E quem sabe na próxima vez, poderiam incluir uma campanha de conscientização sobre a inclusão de pessoas com deficiência em shows.
O transporte público
Com as vias bloqueadas para os ônibus, o metrô era o principal meio de transporte para chegar ao show e para ir embora também, ainda assim, a estação mais próxima foi fechada e a segunda mais próxima (Siqueira Campos) estava acima da lotação, com a fila literalmente de uma multidão de pessoas.
Ninguém sabia muito bem como chegar até a estação de metrô. E além de não comportar milhões de pessoas, o metrô ainda estava cobrando tarifas, e na volta, aceitando somente o pagamento no Rio Card ou em cartões de crédito ou débito. Vi uma dezena de pessoas ser assaltada nesse percurso de volta e só não perdi o meu ônibus porque peguei um moto táxi. A sinalização visual estava fraca e confusa em meio a multidão, mas era outra orientação que poderia ter sido passada nos telões do show.
Será que não estudaram a possibilidade e a viabilidade de organizar um sistema de transfer gratuito com ônibus ou vans para desatolar o metrô? Já vi isso funcionar na Bienal do Livro, realizada na capital de São Paulo, e até durante a semana do Rodeio de Itaquaquecetuba, na grande São Paulo.
Divisão das Pistas
Se não fosse a Lei Ana Benevides (criada em homenagem a Fã da Taylor Swift que faleceu durante o show no Rio de Janeiro) tornando obrigatório a distribuição de água em shows, acredito que um número ainda maior de pessoas teria passado mal. Pois, apesar de ser uma praia, era praticamente impossível ir ao banheiro ou sair de tão amontoadas que as pessoas estavam em torno do palco principal e do segundo palco.
Ainda assim, a organização poderia tentar uma dinâmica mais parecida com os shows em estádios, eles poderiam tentar dividir e cercar o restante da orla em pistas, não somente a área VIP, deixando “corredores” entre elas, e entregar pulseiras de identificação no dia do show conforme ordem de chegada, para que os fãs pudessem ir ao banheiro e se alimentar com mais facilidade e claro, serem socorridos com mais agilidade.
Considerações finais
Por fim, gostaria de esclarecer que, admiro imensamente a iniciativa do prefeito Eduardo Paes de trazer artistas que significam tanto para a comunidade LGBTQIA+ da qual orgulhosamente faço parte. Em meio ao retrocesso que vivemos nos últimos anos, trazer nomes como Lady Gaga e Madonna não beneficia apenas o turismo e os comércios da cidade, mas contribui para o fortalecimento da cultura de respeito à diversidade e a inclusão, aumentando a visibilidade e a discussão sobre essas pautas em todo o Brasil.
Também quero esclarecer que não estou criticando a Globo, pelo contrário, eu acompanhei o show da Madonna no Multishow e a transmissão foi ótima! E fico feliz que todo mundo tenha tido a oportunidade de assistir e se emocionar com a Gaga, mesmo que de casa.
E se não for pedir muito, que a próxima edição traga a Beyoncé como atração principal, assim além de apoiar a comunidade LGBTQIA+ e a equidade de gênero, podemos ampliar a discussão a nível nacional sobre outra pauta importante: o racismo.








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