Suzano, 1909
A estrada para Suzano, pequeno, mas populoso distrito de Mogi das Cruzes, era diferente das outras, enquanto a maioria das terras secava durante o inverno, ela florescia em pétalas amarelas, douradas e perfumadas como o cabelo da mais bela flor da vila: Antônia Montenegne. Mas não havia tempo para apreciar a paisagem, não, a essa hora, minha amada flor devia estar a caminho da igreja dos Barwell.

O enlace matrimonial tinha o teor de um acordo comercial, mais uma aquisição para aquela que ainda era considerada uma das famílias mais ricas da região. O herdeiro dos Barwell tinha estudado na Inglaterra e voltado há poucos meses para Suzano, pretendendo assumir a gestão das propriedades e negócios do pai. E claro, que o sujeito logo se interessou por Antônia.

Antônia sempre fora uma moça curiosa, entendia o funcionamento da fábrica, da confecção dos tecidos, era a primogênita, mas era mulher, por isso, o filho mais novo do Senhor Montenegne que assumiria a empresa. Conhecemo-nos em 1905, em uma das indústrias Montenegne. Eu gostava de ser um dos encarregados da fábrica, entretanto, apreciava ainda mais ter me tornado o confidente de Antônia.

Não demorou para que eu passasse a ansiar por suas visitas e para que elas tomassem outros cenários naquela vila. Um dia tive a ousadia de colher as quitônias amarelas no caminho e improvisar-lhe um buquê, dizendo-lhe que elas me faziam pensar nela. E vendo a alegria dela, tornei a fazer isso todas as vezes em que a encontrava. Os meses passaram e nossa amizade desabrochou em amor. Confiava a Antônia os meus planos de ir tentar a vida em São Paulo, tornar-me um homem rico e pedia-lhe que fosse comigo, que fosse minha senhora.

Até que um dia, logo ao chegar na fábrica, fui surpreendido pela notícia que o Senhor Montenegne esperava-me no escritório. A cordialidade com que ele antes se referia a mim havia sido substituída por uma expressão de ultraje.
– Você pensou que poderia enganar Antônia e tomar o que é meu?
– Não, meu senhor, veja, não tenho interesse no dote de Antônia. Desejo casar-me com a vossa filha, sim, mas jamais tive intenção de fazer mal. – Pois já o fizeste. Acaso não sabeis os boatos sobre a honra de Antônia que estão a circular na vila por tua causa? És um tolo se pensa que permitiria que minha filha se casasse com um saltimbanco.
– Saltimbanco? Dizes isto porque não sou rico? Pois, posso não ter uma fortuna, ainda assim, sou um homem honesto, de princípios!
– Vá-te embora daqui e não volte, pegue teu pagamento e saia ou mando-lhe expulsar.
Deveras abatido, deixei a fábrica. Tendo saído de uma das indústrias mais conhecidas
da região sem recomendação, não seria fácil conseguir outro emprego. Mas eu era o filho mais velho, meus pais precisavam da minha ajuda para manter a casa.


Mudei-me para São Paulo e comecei a trabalhar numa fábrica que havia chegado há pouco do estrangeiro. Com muito esforço me tornei chefe da produção. Enviava parte do dinheiro para minha família ainda em Suzano, e conseguia poupar parte do restante, devido à moradia num quarto de pensão. Havia prometido a Antônia que voltaria e a buscaria para casar comigo. Todavia os anos haviam se passado e ela já não respondia minhas cartas.

Achei que seu amor por mim já tivesse desvanecido, quando por fim recebi uma carta de Suzano, ao menos achei que fosse o caso, mas era um recorte de proclama de casamento no jornal da cidade. A cerimônia iria acontecer dentro de uma semana. Por fim, decidi pegar um carro emprestado da empresa. E agora encontrava-me de tocaia na entrada da vasta casa em que ela morava.

Me embrenhando pelo jardim, fui até os fundos onde ficava o quarto de Antônia. Como da última vez em que nos despedimos, subi pelo muro até a janela.
– Antônio? Que fazes aqui? Ficaste louco? Meu pai te mata se o vir!
– Ele não está aqui. Ora, recebi o teu convite meu amor, vim salvar-te.
– Convite? Eu não lhe enviei nada!
– Mas prometeste neste mesmo quarto que se casaria comigo quando voltasse! Por todo esse
tempo lhe esperei! Por que não respondestes minhas cartas?
– Cartas? Nunca recebi nenhuma – ela franziu a fronte – a menos que… Carlota! Ela buscava
minhas cartas nos correios. Ela deve ter escondido suas cartas.
– Não se case com ele.
– Você não entende, os negócios do meu pai estão mal. Os Barwell vão nos ajudar.
– E você é o que? A garantia desse empréstimo?
– E quem você pensa que é? Meu pai nunca vai te aceitar. – Eu não sou rico. Mas eu sou livre. Por acaso o teu dinheiro pode comprar-lhe a tua
liberdade?
– Não, mas… Eu não posso fazer isso com minha família.
– E não vê o que eles estão fazendo com você?
– Basta! Vá embora, Antônio!
– Pois então diga que você não me ama mais. Que prefere casar-se com aquele canalha do que comigo – eu disse aproximando-me dela.
– E-eu – ela gaguejou com olhos cheios de água – ainda amo-te.
A resposta que saiu de minha boca não veio em palavras, mas em um beijo carregado de saudade.
– Case comigo, venha para São Paulo, vamos construir uma vida juntos!
– Não posso. Os Barwell, eles irão atrás de nós, eles são perigosos!
– Se eles vierem, então, fugiremos, pegamos um navio para Europa, só diga que sim, meu amor.
– Sim. Sim! Mas devemos ir logo, virão buscar me a qualquer momento para ir à igreja!
– Tens razão, vamos agora mesmo! – eu disse puxando-a pela mão.
Já havíamos saído da casa pelos fundos, quando ouvimos um grito dentro da casa.
Antônia entrou no meu carro. Um tiro disparou.
– Minha Nossa Senhora! – ela disse se abaixando no assento.
– Antôniaaaaaa! – o pai dela gritou – Volte agora ou eu mato esse desgraçado!
Por um momento, ela hesitou ao olhar para o pai, e achei que voltaria pra ele. Mas foi então que ela gritou:
– Não! Nunca mais!
Saí arrancando com o carro, temendo que a qualquer momento, o pai de Antônia ou um maldito Barwell nos perseguiria. Meu coração batia forte em meu peito. Antônia tremia
enquanto lágrimas escorriam copiosamente pelo seu rosto.

Quando enfim escapamos da vila e chegamos a estrada, o véu desprendeu-se do cabelo de Antônia e saiu voando pelos ares. Ela olhou para trás e começou a rir até ficar vermelha e sem ar. O riso dela me fez sorrir. E eu soube que tudo ficaria bem.

Casamo-nos numa igrejinha em São Paulo. Alugamos uma pequena casa. Não fomos felizes para sempre, mas sempre que podíamos. E quando tivemos nosso primeiro filho, eu tive certeza que faria tudo de novo. Por eles eu fugiria para qualquer canto do mundo, pois meu verdadeiro lar não era São Paulo ou Suzano, era Antônia.

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