Há 5 anos, o interesse pelo assunto compliance já aparecia nas tendências de busca no Brasil, em contrapartida, a busca pelo assunto ESG era quase insignificante no país, hoje ambos têm um número semelhante de buscas, embora a ascensão da busca por ESG seja muito maior, segundo o painel comparativo do Google Trends. Naquela época o termo em alta era transformação digital.

Entretanto, dez anos atrás já haviam autores na literatura de relações públicas que defendiam o balanço social, que para DE SALVO (2012,pág.35) “trata-se de devolver ao mercado tudo aquilo que os empresários obtiveram durante a sua participação nesse mesmo mercado”.


Coincidentemente, em 2018, comecei a ouvir sobre compliance e sustentabilidade, era minha primeira experiência profissional, naquela época, ESG não era tendência, mas por estar em uma multinacional brasileira, termos como a ISO 14000, código de conduta e transparência eram ouvidos com alguma regularidade na empresa. Embora eu não entendesse bem os significados e a atuação dessas áreas naquele momento. Segundo PARAVENTI (2018, pág.132) “a comunicação tem como responsabilidade a entrega de transparência, como uma premissa extremamente relevante para todos os públicos de interesse”.

Confesso que a responsabilidade social e ambiental da empresa me traziam mais orgulho e satisfação profissional do que o propósito dela em si, sempre que eu conseguia, participava dos treinamentos e iniciativas ambientais, ainda assim, foi essa organização que fez com que eu me apaixonasse pelo mundo corporativo e desejasse me tornar diretora de comunicação e marketing.

Aos meus 19 anos, eu comecei a trabalhar em uma pequena empresa de tecnologia, que não tinha nada disso, e acreditava que o meu papel como comunicadora era começar o diálogo sobre compliance, sustentabilidade e governança, mas que apenas com uma graduação de publicidade e propaganda seria impossível fazer isso, sendo então, esse um dos motivos para eu ter escolhido
fazer uma pós-graduação com habilitação em relações públicas. De acordo com PARAVENTI (2016,pág.126) “a gestão dos temas ética, integridade e compliance tem como ponto de partida para profissionais de comunicação, a discussão sobre as motivações da organização para a adoção das práticas”.

No entanto, a integridade organizacional depende de mais fatores do que a criação de programas de integridade e ética, requer mudanças estruturais e comportamentais em prol da governança, como a criação de um conselho administrativo e um comitê de compliance, para FILHO (2016) “governar
organizações implica cultivar a transparência, informar os múltiplos principais e crescentemente respeitando os direitos dos stakeholders afetados pelas ações e estratégias das organizações”.

Todavia a responsabilidade do comunicador de criar uma relação de confiança e entregar transparência se tornou ainda mais complexa ao longo dos últimos anos, porque:
A discussão do que vem a ser e do que pode ser considerado transparência no contexto organizacional é polêmica, a luz da inviabilidade da aplicação semântica da transparência das organizações. Contudo, discute-se a demanda da discussão e do alinhamento da entrega de informações relevantes e importantes a cada público de interesse, que assegurem a
legitimidade do diálogo e da “licença para operar da organização”(PARAVENTI, 2016, pág. 125).

Além disso, com toda a euforia em torno do termo ESG, o comunicador precisa estudar a fundo sobre governança e responsabilidade social e ambiental para esclarecer as questões e erros comuns em torno delas, como tomar ESG por um novo termo para sustentabilidade, pois as práticas ESG de uma empresa não serão necessariamente sustentáveis. De acordo BELINK (2021, pág. 43), o ESG
pode ser compreendido como um business case da sustentabilidade, que apesar de ser muito bom para o que está na matriz de materialidade, não compreende todos os objetivos do desenvolvimento sustentável, deixando de fora causas importantes na sociedade, que coincidentemente não trariam tanto impacto positivo para imagem corporativa.

Outro grande desafio para o profissional de comunicação é provar o seu valor e ser considerado estratégico pelas áreas de sustentabilidade e compliance. Pois conforme a pesquisa Panorama sobre ética e transparências nas organizações, destrinchada por Paulo Nassar (2016), 77% das organizações têm comitês formais para tratar questões de compliance, mas a área de comunicação participa de
apenas 44% deles.

Há ainda outros desafios: a mudança da cultura organizacional em prol de sua integridade, pois de acordo com PARAVENTI (2016,pág.127) “o desenvolvimento da cultura e clima organizacional configura um importante impacto do alinhamento moral”. E para que a mudança seja efetiva, a autora defende que é necessário não só realizar uma leitura crítica do cenário e da cultura organizacional, como entender os motivadores dos comportamentos antiéticos e imorais para a concepção dos programas e campanhas, além de engajar a alta direção nas iniciativas.


Conclusão

Antes eu acreditava que cabia aos profissionais de comunicação apenas iniciar o diálogo em torno dos temas compliance e responsabilidade social e ambiental, hoje eu acredito que nosso papel é de mediadores, e para isso é preciso estudar a fundo as questões ao ponto de desenvolver uma visão crítica da atuação da organização.

Embora o cenário não seja favorável quando se trata da relevância dos profissionais de comunicação para as áreas de compliance e sustentabilidade, prefiro ver o copo meio cheio e acreditar que nos encontramos em um ponto de virada tal qual foi para a comunicação interna na pandemia da covid-19.

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