Nunca quis trabalhar com marketing político ou comunicação pública, mas surpreendentemente, adorei ter aulas sobre comunicação política e pública na pós-graduação, tanto que resolvi ler um obra da bibliografia por inteiro.
E olha, o Estado de Narciso é uma leitura indispensável para profissionais que trabalham com comunicação pública ou marketing político, capaz de agradar eleitores de todos os lados. Confira parte de sua sinopse:
Como reportar as vaias recebidas pela presidente da República num evento público? Como anunciar dias de total escassez de água no estado de São Paulo sem comprometer o governo? Até que ponto a comunicação pública pode ser considerada realmente pública no Brasil? Eugênio Bucci investiga e analisa neste livro as fronteiras da “supermáquina da comunicação oficial”, trazendo à tona uma realidade escandalosa e ainda pouco discutida, relativa aos interesses privados e às táticas de informação nas diferentes esferas do poder público. A ideia é desmontar uma “usina de propaganda ideológica” e autopromoção, que precisa ser revista.
O jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, ex-presidente da Radiobrás e membro do conselho da Fundação Padre Anchieta, fala com o conhecimento de quem acompanha de perto os movimentos do front. Orçamentos bilionários e manobras para tirar proveito de brechas nas leis estão em jogo numa guerra em que a sociedade paga para ter acesso à informação e recebe em troca outro tipo de serviço.[…]
Como eu li o e-book, não vou poder comentar sobre a versão física, vou começar, então, pela escrita do autor que é rebuscada, não do tipo que você precisa de um de dicionário para ler, mas que te faz pensar “queria escrever com assim”, e uma pitadinha de ironia.
A Obra é divida em 5 partes:
Na 1ª parte, o autor se dedica a descomplicar o que é e o que não é comunicação pública, cujo conceito é confuso ainda hoje, baseado nas definições de diversos estudiosos do campo e na constituição brasileira, afinal, uma das razões de existir dessa vertente da comunicação é o direito do cidadão ao acesso a informação e o dever do Estado ou Governo de informá-lo.
Já a 2ª parte é sobre as emissoras públicas tanto de rádio quanto de televisão, uma explicação sobre como essas emissoras funcionam e se sustentam na Europa e na América, alguns dos cases citados são BBC e TV Cultura.
Falando em cases, como Eugenio Bucci atuou por décadas na comunicação pública, a obra é recheada de relatos de suas experiências profissionais atuando em governos e emissoras, quando eu disse que essa leitura é capaz de agradar leitores de todos os lados, o fiz porque as comunicações dos governos em questão são avaliados de forma imparcial.
A 3ª parte, por sua vez, é dedica ao programa de rádio A Voz do Brasil, que se tornou obrigatório ainda durante a ditadura, sendo merecidamente criticado, assim como a forma que os governantes o utilizaram e utilizam até hoje.
A penúltima parte, porém, foi a mais amarga de engolir, eu sou publicitária, e ela é sobre como a comunicação pública tem se tornado marketing político durante o mandato, sobre como os políticos se aproveitam das brechas na lei para fazer propaganda pessoal e partidária e como as agências têm se beneficiado disso.
E por fim, a última parte é sobre a gestão pública da cultura, problematizando qual é o papel do governo, do ministério da cultura, da Secom e a sua relação com a imprensa.
Portanto, o Estado de Narciso escancara a realidade da comunicação política e pública no Brasil: a serviço do narcisismo dos governantes, quando deveria servir a população brasileira desde o início. As páginas gritam a necessidade de mudar o jogo em favor da democracia enquanto explicam como isso poderia ser feito.
Alguns dos meus trechos preferidos foram:
“É aos direitos dos cidadãos – não ao narcisismo dos governantes – que a comunicação pública, digna desse adjetivo, deve estar subordinada.”
“Quando a fonte é também o chefe, não há jornalismo, nem jornalismo público”
“Construir a imagem é o destino de todo o esforço dos governantes – mesmo que para isso, alguns hospitais, viadutos e sistemas de saneamento sejam necessários.”
Leia também as resenhas das obras:








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